OPINIÃO: O estudante ilhéu é diferente | AzoresTV by VITEC - canal regional com produções dos Açores, vídeos HD e diretos dos melhores eventos da região.

Texto/ Emanuel Areias Foto/ SB

estudante, ilheu, cronica, emanuel, areias, terceira, açores, lisboa

OPINIÃO: O estudante ilhéu é diferente

Publicado por: Vitec
2017/09/28 19:51:00
Foto/ SB
Foto/ SB

Certo dia li que os ilhéus fogem da ilha por temer o isolamento físico. Como escape de algo melhor que podiam encontrar fora daqui. Talvez a pobreza, a miséria, a falta de trabalho expliquem a saída obrigatória, mas não me parece que quem nasça na ilha se sinta ostracizado do mundo, em virtude do mar rodear o espaço físico onde vivem. Os estudantes são aquilo que de mais próximo conheço, acerca da saída do espaço insular por obrigação. Uma obrigação que não é obrigatória, mas é necessária, logo moralmente forçosa. Os horizontes são estreitos quando o espaço que conhecemos é pequeno. Parece que o mundo existe fora do nosso mundo e que nós vivemos num imaginário longe da realidade que as televisões e a internet nos mostram.

 

Parece-me que aquela identidade posterior à minha primeira, criada ou encontrada por necessidade, no novo mundo que descobri enquanto estudante, tende a ocultar-se numa das gavetas do cérebro. Porque essa identidade não foi perfeita e não é digna de se manter, depois de se regressar ao lugar de onde se saiu. Talvez a fortaleza que criamos para enfrentar os obstáculos que encontramos, seja por vezes, uma barreira ao sentir, ao sentimento. Na dificuldade custosa de enfrentarmos a tristeza ou a solidão, obrigamo-nos a um grau superior de frieza para não sentir dor. Ganhamos anticorpos que nos moldem o estado de alma e a ação diária.

 

É fácil reencontrar alguma estabilidade quando o avião começa a descer para a Terceira porque o coração acalma-se e a mente fixa na recordação, que pode ser novamente vivida. Parece que viver fora da nossa terra diferencia-nos no novo espaço, muda-nos atitudes e comportamentos. Às vezes, voltamos diferentes quando regressamos. Mas continuamos a mesma pessoa. Talvez seja resultado de um processo de crescimento. É algo mais. Nós vamos muito cedo para a novidade. Embarcamos com 17 ou 18 anos e voltamos com 20 ou 21 anos. Continuamos jovens, passamos por transformações difíceis, intrínsecas apenas à nossa experiência. Os jovens estudantes do Continente têm o escape do fim-de-semana, para voltar a casa e à família, e podem voltar à realidade que os viu crescer. Os açorianos voltam nas épocas lembradas pela tradição e pelo Verão. São períodos de uma durabilidade significativa. Por isso mudamos, crescemos, aprendemos.

 

Voltamos a casa, depois das aulas e temos de fazer toda uma vida. Quando a aula, o teste ou o trabalho correm mal, não temos ninguém em casa à nossa espera para nos acudir. Quando ficamos doentes, ninguém cuida de nós. Não temos ninguém para nos perguntar como correu o dia, a não ser uma chamada de 5 minutos com os pais. Isto muda-nos. É todo um processo moroso, porque 3 anos não são 3 dias. Conseguem, depois, olhar-nos nos olhos, quem é ousado, e dizer que somos ainda jovens com muito para aprender. É verdade. Mas também temos muito para ensinar.

 

O julgamento de que temos uma vida boa, de que apenas estudamos de vez em quando e de que vamos a festas, é esquisito. Depois há quem faça comparações. Antigamente é que se trabalhava no duro, é que se estudava a sério, é que se preparavam homens e mulheres com educação. Os tempos mudam e com os tempos, as circunstâncias. Nós vamos para fora estudar e não fomos para a tropa nem começamos a trabalhar com 15 anos de idade. Nós fomos para fora estudar e não trabalhamos noite e dia na horta. Não levamos com a régua em sinal de repreendimento, mas fomos repreendidos nas horas de maior tristeza. Trabalhamos de forma diferente e lidamos com outras dificuldades. Não somos menos nem mais guerreiros do que os do passado. Sofremos mentalmente pela solidão sentida. É uma dor considerável. Tendemos a chorar muito na hora de dormir e quase desistimos. Sobretudo mudamos.

 

Um estudante também chora, também sente. Mas ganha uma frieza suplementar e até se pode tornar insensível para se ausentar da mágoa diária. Tem os seus momentos altos de nostalgia, de saudade e de recordação. É neste misto de sensações e emoções, que um estudante ilhéu se vê mergulhado. Sem saber o que sente, sem saber o que a vida trás, sem saber o dia de amanhã. Apenas se foca em objetivos. O objetivo de voltar em tal data, o objetivo de voltar depois de já ter voltado e ter tido a obrigação de regressar, o objetivo de fazer novas amizades, de se divertir, acabar o seu curso.

 

Um estudante açoriano é um misto de tantas coisas, de vários sentimentos e de muitas lutas. 

 

Texto/ Emanuel Areias 

Foto/ SB

Imagens de notícias

Categorias:
Tags:

Partilhar

Powered by WebTV Solutions