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Texto/ Emanuel Areias Foto/ SB

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OPINIÃO: Volta à Ilha com os vizinhos

Publicado por: Vitec
2017/10/03 20:27:54
Foto/ SB
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Saímos de casa e fomos buscar os meus vizinhos a casa. O meu vizinho, na noite anterior, quase gritava pela dor da solidão. Não foi um ato de bondade, mas o cumprimento de uma missão social, de uma missão de dignificação da vida e da amizade. A dor da solidão é triste, inquieta, magoa, devora, irrita, enlouquece, faz explodir, faz gritar, faz chorar. Um simples gesto de ternura, que passe por tirar pessoas idosas de casa, já é um contributo inimaginável para estas pessoas, onde o espaço onde vivem isola, física e psicologicamente.

 

Como bem dizia o meu vizinho, já não dava a volta à ilha há pelo menos dois anos. A casa é uma prisão e a dor física é um transtorno, que ganha proporções diárias. O bordão já não suporta o que a vida deu de mau ao corpo. A horta fica imutável há tempo de mais. Para ultrapassar todas as ansiedades da vida e o medo da noite e do dormir, levamos o vizinho e a vizinha ilha fora, em direção ao lado norte. A Vila Nova é relembrada pelo vizinho, pelas cantigas que fez em pezinhos, ao Império do Divino Espírito Santo. Em sinal de troça, ele diz que a Vila Nova é uma falsa vila, e só as Lajes é que o é de verdade. Não fosse a Vila Nova a minha terra. Segue-se para a Agualva, e ele, maravilhado com água da ribeira, faz quadras para alegrar a viagem. Caminhamos pelas Quatro Ribeiras, cujo miradouro possui uma vista deslumbrante. Cativa-o a mar a mexer. Os Biscoitos é a terra de todos os desejos, embora não seja a preferida do homem, que conheceu o mundo de antigamente.

 

Depois entra-se a toda a velocidade pelas freguesias mais rurais da ilha. Segue-se Altares, Raminho e Serreta. Ele vislumbra as serras lá longe no meio da ilha, ao mesmo tempo que reconhece os terrenos cheios de milho, que ele diz estar cozido. Recorda que o Raminho é lugar onde nasceram poetas como ele é. Mas a terra dos seus encantos é a Serreta. É lá, na Mata da Serreta, que se reencontra e ganha ânimo para o resto que há para viver. Ele, devoto fervoroso, crente não só na religião católica, mas também no criacionismo, reza na igreja da Nossa Senhora dos Milagres. Ele crê no sobrenatural, próprio da educação que teve, e a bíblia acompanha-o em súplicas incontáveis.

 

Seguimos para o resto da ilha, passando por outras freguesias de Angra. Paramos nas Cinco Ribeiras. Vamos ao Queijo Vaquinha, mas o vizinho não entra. É aí que percebo que a solidão envolveu-o novamente, porque ele sabe que aquela volta de recuperação do espírito não é eterna, e que voltará cedo ao seu canto do céu, que também pode ser de inferno.

 

Depois de completar a visita, de visitar Angra e a Praia, todas as freguesias da ilha, ele chega ao início da rua que desce para a Caldeira, e diz que está de regresso, depois de ganhar um pouco de ânimo.

Na vida deles, isolados pelas conjunturas, a felicidade é efémera. Momentânea, quando devia ser total e perene. O caminho é a desilusão com tudo, a solidão, a crítica feroz à vida. Isso não é viver bem, mas resignar-se à sorte macabra.

 

Texto/ Emanuel Areias

Foto/ SB

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