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Texto/ Emanuel Areias Foto/ SB

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OPINIÃO: Saudade, Resiliência e Crescimento

Publicado por: Vitec
2017/10/31 19:26:31
Foto/ SB
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Os estudantes quando chegam ao Continente perfilam-se, por dever e obrigação, com base na diferença. Tendem a impor-se ao meio e às pessoas, usando um discurso quase mítico, de que os Açores são o espaço idílico, incomparável e sedutor. A diferença é o que define a integração, uma vez que só se adapta ao novo meio, quem toma como referência a sua terra. Logo, é diferente, e assume-se como tal.

 

Nenhum açoriano tende a explicar o que diz, ou se mostra orgulhoso em demasia, entre os seus conterrâneos, por ter um sotaque peculiar. Fá-lo fora dos seus, porque vê-se obrigado a mostrar-se diferente. A distância intensifica as vivências de cada estudante fora de casa – a um nível quase obsessivo. Seja o amor, a saudade ou a própria vida.

 

Qualquer estudante fora de casa, que não regressa, a não ser em épocas específicas, move-se com base num ciclo, a partir do dia em que parte: saudade – resiliência – crescimento. É esta sucessão de estados de alma que definem o último estágio da existência insular, e o mais importante – o crescimento. Primeiro, a saudade, que é maior, neste caso, porque a descontinuidade territorial da ilha, leva-a a atrair de forma desmesurada os seus filhos. Agarra-nos para trás, e a saudade é, por consequência, presença opressora e bela. Esta antítese permanente, leva à necessidade de uma resiliência forte. Esta é constante em qualquer açoriano – o que emigra e o que sai para estudar. O ser resiliente é marca indelével da existência açoriana. O espírito ilhéu, de regresso pela memória às tradições e vivências, sustenta a vida do estudante e garante a sobrevivência na dor. Até como fuga de esperança. É pelo misto de dor/saudade, e ao ser-se resiliente/lutador, que se cresce. O crescimento é o resultado da saída obrigatória, da vida solitária e da aprendizagem permanente. Aprender sozinho é a melhor forma de crescer e ser grande. Quer-se que “todas estas saudades sejam o reflexo do crescimento deste filho”[1]. Filho que no caso, é a imagem coletiva de todos os estudantes ilhéus.

 

Ao estudante convinha não ter de esperar pelo avião na hora de regressar a casa. Era melhor que tudo se fizesse subitamente, e o regresso fosse feito com um estalar de dedos. Na noite anterior ao regresso, o estudante tende a sonhar acordado e não dorme. Como Vitorino Nemésio diz, em 1936, “(…) se pudesse ser, fazia-me pomba do mar. Era um bocado ridículo (…) – mas confesso que gostava de ser assim uma coisa ou um bicho livre, sem passagem a pagar nos paquetes, sem contas a dar a ninguém, e ir de tempos a tempos à minha ilha ver as pessoas que me interessam e os sítios que deixei.”[2] Como nós (vocês agora, eu já não). Era mais fácil ser uma coisa permanentemente livre, para regressar todos os dias. Todos os dias em que a dor fosse mais forte do que a própria saudade e o querer voltar.  

 



[1] Emanuel Areias, “As Crónicas de um Estudante Ilhéu”, 2017

[2] Vitorino Nemésio, “O Ilhéu”, Diário de Lisboa, 1936

 

 

Texto/ Emanuel Areias

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