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Texto/ Emanuel Areias* Foto/ CMAH

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OPINIÃO: Cidade do Mundo - Angra afetiva, Angra histórica

Publicado por: Vitec
2017/12/08 01:15:25
Foto/ CMAH
Foto/ CMAH

Na marcha oficial das Sanjoaninas 2017, houve um trecho da letra que revela o que Angra significa: “Terra de histórias de liberdade/ Angra é vontade,/ Angra é cantiga/ Do heroísmo em alma de epopeia/ Angra é sereia,/ Braveza antiga/ É ilustre majestade,/ É divindade/ Nobre e leal/ A princesa sanjoanina/ Esta menina/ Que respira Portugal.” Angra estás de parabéns pelos 34 anos de cidade património mundial. Se os homens já te deram o mérito que merecias, só restam os deuses para te erguer ainda mais alto.

“Mas sejamos portugueses, sempre portugueses, só portugueses”, assim dizia Luís da Silva Ribeiro em conferência realizada na Associação de Classe dos Empregados no Comércio de Angra do Heroísmo, em 16 de Março de 1919. Hoje, ao falar de Angra do Heroísmo, vislumbrando nela metade do meu coração, obrigo-me a relembrar a Praia da Vitória, a outra metade de mim, dizendo assim: “Mas sejamos terceirenses, sempre terceirenses, só terceirenses.” Mas também açorianos e portugueses, claro.

 

Honrosamente estou aqui, a manifestar o meu amor à ilha e à cidade de Angra, apesar das minhas parcas capacidades para traduzir em palavras a força dos meus sentimentos. Apesar da minha curta vida e do meu singelo falar, reitero que sentir a nossa terra é umas das poucas qualidades que tenho. A esta exposição dou o nome de “Cidade do Mundo – Angra afetiva, Angra histórica”. Falemos na ilha, falemos em Angra, falemos em afetos, falemos em História.

 

Vou começar por refletir um pouco em torno de Angra afetiva, recorrendo às descrições e emoções de alguns autores, e aos meus próprios sentimentos.

 

Somos cerca de 50 mil pessoas num pedaço de terra, que se insere num mar hegemónico, que controla e nos faz ser diferentes. Volto a citar Luís da Silva Ribeiro – “o homem sofre a poderosa influência do meio geográfico onde habita, o qual modifica fatalmente o seu modo de ser físico e moral”. Os homens e mulheres terceirenses possuem as especificidades próprias de um povo que sobreviveu ao isolamento e, que apesar de tudo, fez da ilha um lugar puro, harmonioso, festivo e alegre. O meio fez-nos bravos, aguerridos, fortes e fiéis. A História prova-o. A Geografia explica-o. A vitalidade da nossa ilha está na união das suas cidades e na visão integrada do seu território. Só assim faremos jus à valentia de quem construiu e viveu o passado de que nos orgulhamos.

A dimensão ilha é a prioridade, antes de requerer Angra, por breves minutos, só para mim, para me debruçar sobre ela, enamorando-a e definindo-a. O bairrismo engraçado e meigo, que nos faz verificar que o círculo identitário é complexo, leva-nos à situação nefasta do desmembramento da ilha. Não se ouse tal coisa, para não pôr em causa a sobrevivência do nosso povo.

 

Recentemente li 3 livros que marcaram não só a minha visão sobre os Açores, mas também a perceção sobre a ilha Terceira, e por consequência, sobre as suas cidades. Darei a visão dos autores acerca de Angra do Heroísmo, numa perspetiva que é exterior à vivência diária na ilha e na cidade. O olhar externo dos autores aliado às viagens ou regressos que fazem para contemplar, leva-nos a crer que a narrativa de viagem é uma boa forma de olhar uma terra que nos prende e nos faz ficar.

 

Raul Brandão, com as “Ilhas Desconhecidas”, revela-nos uma visão total das ilhas atlânticas, e faz uma descrição colorida e mágica do meio que nos define. Ele cria um hino belo aos Açores e à Madeira, afirmando que “aqui acabam as palavras, aqui acaba o mundo que conheço; aqui, neste tremendo isolamento onde a vida artificial está reduzida ao mínimo, só as coisas eternas perduram.” Absorvendo a Terceira, acaba por se povoar interiormente quando se encontra com Angra: “O navio fundeia na Terceira, num vasto semicírculo, fechado ao norte pelo Monte Brasil e do outro lado pela ilha das Cabras. Está um calor surdo. Demoro-me a olhar a cidade, donde irrompe uma pirâmide amarela, o monumento a D. Pedro IV. Num plano mais afastado alguns montes escalvados.” Tal como escritor, o homem ao ver Angra do mar, sente-se prestes a entrar no mundo inteiro. É como se o mundo estivesse todo nas ruas de Angra. Cada rua é uma página de História por contar. A cidade é aberta à visão de quem a vê de longe, não se fecha sobre si mesma e não está de costas viradas para o mar.

João de Melo, com “Açores – o segredo das ilhas”, revela-nos o sonho de se sentir “o único habitante, o último ser vivo de Angra, dono e senhor destas ruas”, esta experiência de se ser homem solitário numa cidade universal, e estar tão cheio e completo por dentro, transbordando de felicidade, porque mesmo sem gente, Angra consegue ganhar pulso, que faz o homem esperar o anoitecer acompanhado pela cidade, sem nunca estar verdadeiramente só. O escritor continua e diz que “de dia, porém, a cidade é de toda a gente, alegre e democrática como poucas ao longo da sua história, sendo eu apenas um estranho na sua vida quotidiana”. Angra com luz é rica, é das pessoas, é da liberdade, é de todos, sem ser de ninguém. É apenas e só da sua História. Uma cidade que teve no regaço todo um país, serviu de casa a D. Pedro IV, a Mouzinho da Silveira, a Almeida Garrett ou ao Padre António Vieira. João de Melo conclui que é “a mais bela e mais portuguesa dos Açores”. E continua, a descrever o que a ampara e a faz estar no centro de tudo: “ampara-a pelas costas, do lado poente, o porto da Silveira, que nela entra como se fosse um rio de mar; melhor a amparam, ainda agora, a Fortaleza de São João Batista (edificada pelos espanhóis no tempo de ocupação filipina) e o Forte de São Sebastião, do lado oposto. Cidade de dois fortes e duplo varadouro, não admira que a sua baía seja hoje um cemitério de navios (…) Angra «a muito nobre, leal e sempre constante», encheu-se de uma história que a recheou de atos simbólicos.” É esta a cidade magnífica, com um património rico, que nos faz caminhar sem parar, cumprindo uma espécie de roteiro obrigatório, que não está num papel. João de Melo diz ainda que “Angra são mais do que moradas: representam gostos e modos de ser, a vida como arte e como gesto de prazer.” É este cantar do poeta-escritor, que nos envolve na chama de Angra, e nos faz querer ser dela.

 

Vitorino Nemésio, com o “Corsário das Ilhas”, evolve-se na sua consciência e memória, num regresso aos Açores, em duas viagens – uma de navio, em 1946, outra de avião militar, em 1955. Nestas viagens, apesar de focar os Açores como um todo e de ir, igualmente, em viagem às Canárias, Nemésio também revisita Angra, procurando nela lembranças da sua adolescência. No primeiro corso, em 1946, relembra a fisionomia da ilha, que é “profundamente rural” e que “Angra levanta ao sul, na falda do Monte do Brasil, as suas torres históricas; mas a densidade do casario, a perfeição do roteiro, a nobreza das linhas urbanas são um simples parêntese na vasta quadrícola de «cerrados» que é a cintura da ilha, toda bordada de casas ao longo da estrada litoral.” É Angra que chama a si o espaço urbano por oposição à restante ilha rural. E continua, cantando a cidade como “capital histórica de toda uma província insular”. A 7 de Novembro de 1946, no relato “Encontro de Angra”, Nemésio vislumbra que a cidade lhe dá não apenas o que tem, como é lugar de contemplação além: “O Alto das Covas descobre toda a extensão residencial dos arrabaldes de Angra, e, para lá das duas ou três araucárias gigantescas que torreiam a saída da cidade, a negaça de uma ilha ao longe, que espreita por trás de outra ilha: é o cone do Pico, barrado pela faixa gris e lilás de São Jorge.” Fazendo jus ao seu amor à equitação, revela-nos o prazer de fazer um “périplo por Angra” a cavalo: “O cavalo é um grande cicerone: Levanta-nos e dá-nos o que está para lá dos muros, - a perspetiva de um arredor.” No decorrer do segundo corso, em 1955, volta a Angra. Conclui, que contrariamente às transformações decorrentes nas “imediações das Lajes”, “a velha estrutura urbana de Angra resiste, assimilando o que de espúrio ou de novo lhe vão metendo na pele. Hospedam-se familiarmente junto às casas que foram dos Provedores das Armadas da Índia a refresco nas ilhas atlânticas, num alto estratégico, que tanto domina o interior da cidade e o seu sainte para os montes como a pequena e profunda baía à sombra do Monte Brasil esteiado pelo castelo filipino. Assim, sem sair do quintal me debruço sobre o casario todo, e recolho, à esquerda, a silhueta das muralhas e da igreja que lembra a Restauração do domínio português na fortaleza: à direita, o perfil da serra do Morião, atalaia do mundo dos algares escondidos e do gado bravo e leiteiro.” No início do “Corsário das Ilhas”, no texto no qual aborda “Os Açores”, Vitorino Nemésio realça Angra: “Era em Angra que escalavam, na volta da Índia, as grandes frotas, a começar pela primeira, a de Vasco da Gama, que lá deixou sepultado o irmão e o companheiro, mandando à frente, a Lisboa, o aviso da grande nova.”

 

Pessoalmente, enquanto estudante ilhéu em Lisboa, sempre que avistava uma referência à Terceira, relembrava a terra deixada e a saudade sentida. Numa ocasião, no metropolitano, estavam colados cartazes que faziam publicidade à Terceira como destino turístico. Isso fez-me ver a Terceira, a Praia da Vitória e Angra do Heroísmo dentro do metro. Sobre Angra do Heroísmo escrevi o seguinte: “Vai-se à rua da Sé. Desce-se. Bebe-se da cosmopolita herança de outrora – do que fez os terceirenses, angrenses em particular, serem alimentados pelo encanto de serem património do mundo. O mundo é mesmo ali, sem que haja necessidade de o fazer como ele é na verdade. É de outra maneira. É o nosso mundo. O que idealizamos. As artérias da cidade dão-nos a vida do sonho. Aquela que sonhamos ser impossível, mas verdadeira na realidade. Hão-de sonhar outros, na impossibilidade de viverem num paraíso, e nós dentro dele. A memória está repleta. E Angra é muito mais que tudo isso. Só que não a sei agora. Porque pensar nela, faz não saber pensar, mas apenas vivê-la. Senti-la. Não me consigo meter dentro do seu encanto, que me seduz, que me reduz à felicidade suprema e eterna, de ser dela, por ser da ilha.”

 

Quanto à Angra histórica, muito haveria a dizer, mas prefiro centrar-me na fidelidade da ilha e de Angra à nação portuguesa. Este é um aspeto tão pouco valorizado na nossa História oficial. Rejeito a entrega ao desprezo que muitas vezes, o nosso arquipélago é sujeito, por alguns historiadores nacionais. Assim sendo, vou expor algumas ideias acerca desta fidelidade da Terceira e de Angra, em particular, ao país, recorrendo a alguns excertos da autoria de algumas figuras angrenses, como Luís da Silva Ribeiro ou Henrique Brás.

Na conferência mencionada no início da minha exposição, Luís da Silva Ribeiro considerou que a Terceira “não sabia faltar aos seus compromissos”, dando o exemplo do desastre de Alcácer Quibir, e cito: “D. Sebastião, levado pelo seu sonho de glória (…) sepultar nos areais ardentes de África a independência nacional. Pulularam então os pretendentes à coroa mal segura nas débeis mãos do Cardeal-rei e entre eles D. António Prior do Crato. A Câmara de Angra, como as das restantes ilhas, jurou-lhe fidelidade e, apesar de posteriormente São Miguel se declarar partidário do rei de Castela, a Terceira manteve-se fiel ao seu juramento.” Continua a manifestar o valor das ilhas e da cidade de Angra do Heroísmo, agora noutro momento histórico, quando afirma: “Únicas terras portuguesas onde vigorava o regime constitucional e onde D. Maria II reinava como legítima soberana, foi destas ilhas que o grande Mouzinho da Silveira deu leis a Portugal inteiro, foi no histórico palácio do Governo Civil de Angra do Heroísmo que o maior legislador português dos últimos tempos organizou o Portugal do constitucionalismo (…)”.

Henrique Brás, no livro “Ruas da Cidade” também se pronuncia acerca da resistência da ilha ao domínio externo, no qual Angra desempenha papel central, como cenário de acontecimentos históricos memoráveis. Ele assume: “Sabe-se que esta ilha resistiu, como nenhuma outra terra portuguesa, ao domínio castelhano. Ninguém ignora – melhor dito, ninguém devia ignorar – que foi este rochedo minúsculo, perdido no meio dos mares, que um punhado escasso de homens, ardidos e briosos, redimiu a honra nacional da ignomínia duma capitulação sem resistência, lutando nada menos de três anos contra o rei de todas as Espanhas, o maior potentado daquela época…”. A História da ilha e a bravura das suas gentes mistura-se com a História de Angra, sendo impossível negar esse facto objetivo. 
As palavras inseridas no livro “Ilha Terceira – estudo de linguagem e etnografia” ficam na memória, em jeito de engrandecimento do que significa Angra: “é a mais pitoresca e formosa cidade de todo o arquipélago açoriano (…) e oferece aos visitantes um dos mais surpreendentes panoramas dos Açores. Ainda no dizer do Professor Dr. Armando Narciso, Angra foi a velha capital e corte e é a pequena Roma desta pequena cristandade que os mares rodeiam.”

 

Angra tem uma história de resistência e de autodefesa. Importa reforçar e relembrar os seus feitos, mesmo que caía fortuitamente em repetições: defendeu-se de piratas, resistiu ao domínio filipino, mesmo quando todo o país passou para o jugo castelhano, e foi esta cidade que abraçou e apoiou D. António Prior do Crato, sendo aqui que este estabeleceu o seu governo. Esta terra foi palco dos conflitos entre liberais e absolutistas e foi por aqui que passou o futuro da nossa nação. Na época dos Descobrimentos, Angra foi passagem obrigatória para os navegadores que vinham das Índias, tendo sempre estado no centro das rotas comerciais que ligavam os quatro continentes. “Mui nobre, leal e sempre constante cidade de Angra do Heroísmo” são os títulos que definem o seu percurso histórico de grandeza e lealdade. 
No centro de Angra, há um dos mais belos jardins que já visitei. Da porta de entrada ao Alto da Memória, faz-se um passeio que satisfaz o íntimo e os olhos. No jardim cativamo-nos pelo mosaico de cor, luz, harmonia e história. Os nossos olhos fixam-se no monumento que homenageia Almeida Garrett, figura marcante da ilha, cujos versos são prova do seu amor à terra de todos nós: “não tive a fortuna de nascer naquele torrão/ Mas a minha pátria/ mas a de meus pais/ mas o meu património/ mas tudo quanto constitui a pátria de um homem é… a minha saudosa ilha Terceira… um dos mais nobres padrões da glória portuguesa.” À medida que subimos, vamos descobrindo Angra por completo, sendo que o clímax dessa busca, atinge-se quando alcançamos o topo da Memória. E é como se chegássemos ao topo do mundo. Do Alto da Memória, podemos desfrutar de uma paisagem encaixada, onde a baía e o centro histórico se conjugam numa moldura perfeita, que nos faz atingir um estado de ataraxia plena.

 

Angra é o rosto de um passado triunfante, de crer, de garra e força diante das mais hediondas circunstâncias que a afetaram. Angra perfila-se como uma das mais bonitas cidades que os homens conceberam, pelo seu traçado urbano único. Angra figura no mapa mental do império perdido e é em Angra que ganhamos a ilusão de ainda estar no centro do globo. Aqui sentimo-nos dentro de um labirinto de saudade que relembra a grandeza histórica do passado, ao mesmo tempo que embarcamos num rasgo de esperança rumo ao futuro. Angra é dominante, cativante – domina o mar, domina os caminhos da História, domina os homens, domina a natureza, porque mesmo destruída, regenera-se, melhora-se, recria-se. A Angra de hoje tem um rosto lavado, é limpa e serena, e é herdeira das vitórias que lhe fez cidade do mundo.

 

Tenho a certeza que Angra é a capital espiritual de Portugal, pela referência mítica que simboliza num país com uma História imensa. Nem guerras, nem catástrofes nem os homens – nada destrói esta cidade, património do mundo e do Universo.

Viva Angra do Heroísmo! Viva à Terceira!

 

Texto/ Emanuel Areias*

*Conferência "Cidade do Mundo - Angra afetiva, Angra histórica", proferida a 7 de Dezembro de 2017, no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Angra do Heroísmo

Foto/ CMAH

 

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