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Texto/ João Rocha Foto/ Vitec

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OPINIÃO: O refrão da felicidade

Publicado por: Vitec
2018/02/01 20:02:13
Foto/ Vitec
Foto/ Vitec

O Carnaval representa quase como um período de tréguas com as chatices corriqueiras. Mesmo que apeteça chorar, as pessoas dão para rir num pranto de folia. A ambiguidade espiritual é traduzida fielmente nos palcos de sociedades e casas de Povo por toda a Terceira, em forma de danças, bailinhos e comédias.
A crítica social enreda dramas e comédias para uma plateia ávida de emoções fortes.


A freguesia, o concelho, a ilha, o arquipélago e o próprio mundo são passados em revista por cidadãos comuns do nosso dia-a-dia. O sapateiro vira doutor, o lavrador bem pode ser bêbado ou astronauta num desfiar de personagens multifacetadas à conta de uma manifestação de teatro popular sem igual.
Os figurantes e os músicos representam a coreografia das danças, cujos passos são seguidos por largos milhares à volta da ilha.
A fórmula do sucesso, com uma ou outra inovação, está mais do que encontrada.


O público acotovela-se à procura do melhor lugar e o farnel desenrasca refeições necessariamente abreviadas para não se perder o fio à meada.
É uma verdadeira loucura, sem ponta de exagero. Os inúmeros ensaios preparam atuações que se querem do inteiro agrado popular.
Há nomes de artistas e de lugares a defender com o máximo esmero possível.
E, depois, há um mar de gente a trabalhar na sombra para que tudo dê certo. Costureiras, condutores e dirigentes de sociedades remam todos para o mesmo lado..
Quem ficará de fora desta manifestação cultural? Nas freguesias rurais apenas os acamados, enquanto que o fenómeno, nos meios citadinos, passará essencialmente ao lado de jovens que gostam de dançar sem esperar pelas... danças.


O resto da população alinha, de alma e coração, nas danças e bailinhos. Os dançarinos e músicos entram diretamente. De uma forma indireta, porém, há milhares de pessoas a dar o seu contributo.


Em primeiro lugar o público, cujo entusiasmo fervoroso prende-lhe às cadeiras das plateias até altas horas da noite durante o Entrudo. Há, ainda, muitas outras formas de colaboração. As senhoras que confecionam comida para a “mesa das danças” a obsequiar aos grupos após cada exibição, os autores dos enredos, os carpinteiros que constroem os adereços, os indivíduos (normalmente não dado a bebidas...) que conduzem as carrinhas com os artistas por toda a ilha, as costureiras e um nunca mais acabar de gente.
Em termos económicos, a quantificação de todo este esforço daria para pertinentes estudos. Mas, neste caso e em todos os outros, o que importa é relevar o lado humano.
E, aí, o Carnaval da Terceira não podia estar melhor servido. Seja de espada, pandeiro ou de bailinho, os dramas e comédias que costuram as nossas vidas estão, mais uma vez, a pôr o povo feliz. 


Em quatro dias, que pegam sem remissão nas madrugadas, o povo encontra o refrão da felicidade.
Gargalhadas, intercaladas com lágrimas, envolvem o figurino humano do fenómeno. No fundo, é a nossa vida que está em cena. O melhor é deixar o tempo correr (mais uns dias, apenas) para ver, aplaudir e esperar pela dança seguinte.

 

Texto/ João Rocha 

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