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Os motivos são os mais díspares. Problemas de saúde, emocionais, académicos e profissionais. A Igreja da Nossa Senhora dos Milagres, na Serreta, recebe, ano após ano, milhares de pessoas   Mesmo sem recurso a estatísticas oficiais, o padre Francisco Do...

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Romaria à Serreta pelos caminhos da fé

Publicado por: Vitec
2018/09/09 02:13:59
Foto/ JR
Foto/ JR

Os motivos são os mais díspares. Problemas de saúde, emocionais, académicos e profissionais. A Igreja da Nossa Senhora dos Milagres, na Serreta, recebe, ano após ano, milhares de pessoas

 

Mesmo sem recurso a estatísticas oficiais, o padre Francisco Dolores admite a participação de um terço da população da ilha Terceira (cerca de 20 mil pessoas) nas romarias à Serreta, com especial incidência para os dias festivos que medeiam entre a noite de sexta-feira e domingo.
Trata-se, de longe, da maior peregrinação terceirense - a segunda mais importante diz respeito a Santo Amaro, que se celebra a 15 de Janeiro.
Os devotos são oriundos de todos os pontos da ilha, caminhando rumo à Serreta isoladamente ou em grupo a qualquer hora do dia ou da noite.
Francisco Dolores refere a existência de múltiplos pedidos de benesses à Senhora dos Milagres.
"São os pais que desejam que o filho fique sem defeito após o acidente de moto, a esposa que quer o marido de volta aos "bons caminhos", o estudante à procura de sucesso nos exames e lavradores que pretendem o gado a salvo de qualquer doença" - especifica.
Há, ainda, quem faça questão em participar, descalço, atrás do andor da Senhora dos Milagres, na procissão da tarde do domingo da Serreta.

 

Em troca das benesses, os devotos costumam oferecer cera ou dinheiro para a Igreja da Nossa Senhora dos Milagres.
O hábito da peregrinação à Serreta tem ganho cada vez mais adeptos, sobretudo nos últimos 15 anos.
"Trata-se de uma forma de religiosidade popular, de expressão de fé, que mobiliza gentes de todas idades e oriundas de vários extractos sociais " - advoga Francisco Dolores, que recorda, em tempos idos, peregrinações em carros de bois e carroças destinadas essencialmente aos devotos com idade mais avançada e dificuldades de locomoção.
Nos tempos actuais, os idosos optam por ir de automóvel à Serreta, fazendo muitos deles ponto de honra em passar a noite na Igreja.
Refira-se, a propósito, que a pequena freguesia, que nem chegará ao meio milhar de habitantes, esgota praticamente todos os seus recursos nas festividades da Senhora dos Milagres. Depois do último foguete, após a famosa toirada da 2ª feira da Serreta, passa-se mais um ano em que quase não se fala da freguesia. Setembro aparecerá novamente no calendário em 2004 e será altura para outra romaria à Senhora dos Milagres. É a força da fé. Não se explica, sente-se...

 

A caminhar se faz fé

As grandes caminhadas sempre fizeram parte da religiosidade. O padre Francisco Dolores admite ligações dos devotos açorianos aos hábitos trazidos pelos povoadores das ilhas, habituais participantes nas grandes peregrinações a Santiago de Compostela, onde proliferam santuários marianos.
Lembra, a propósito, que o termo romaria advém de ir a Roma ver o sucessor de Pedro.
As romarias a Jerusalém e à Palestina foram interrompidas no século VII pela ocupação árabe. Graças a tal facto, surgiram as Cruzadas que mobilizaram toda a Cristandade para a sua reposição.

 

O que conta é o espírito

"Em todas as religiões é prática muita antiga fazer ofertas à Divindade", de acordo com declarações prestadas ao nosso jornal pelo padre Francisco Caetano Tomás.
"É um sentimento normal da consciência humana e representa um certo sentido de "comércio", na perspectiva de se "dar alguma coisa para se ter algo em troca" - sublinha.
Para Caetano Tomás, há, nos pressupostos das promessas, uma "tendência para a mutualidade", tendo como base "relações de amor/carinho".
"A pessoa humana faz o mesmo com Deus", tendo em relação ao Criador "atitudes muito semelhantes às que desenvolve com a figura paterna", numa necessidade de "captar benevolência".
No que concerne ao Cristianismo, o Antigo Testamento referencia a existência de promessas ou votos.
"Há muito cuidado em cumprir os votos por causa de obter a benevolência de Deus", numa ligação afectiva/espiritual que continua no Novo Testamento.
Caetano Tomás acrescenta que na história do Cristianismo "sempre tem havido promessas com bons resultados", o que se traduz no pagamento das dádivas que passaram, nalguns casos, pela construção de igrejas.
"Contra factos não há argumentos. Numa promessa feita com bom espírito, existe uma espécie de "cláusula" que determina a obtenção de dádivas se for da vontade de Deus" - adianta.
Tudo isso porque "Deus tem a Sua providência, os Seus pensamentos e os Seus projectos acerca das pessoas".
Sendo assim, o pagamento de promessas é uma tradição que "nunca se irá perder".
"Deus adapta-se às necessidades e fraquezas da pessoa humana, ao mesmo tempo que é Deus e Pai. Não Se escandaliza com essas coisas" - concretiza o raciocínio o padre Caetano Tomás.
De resto, a promessa é um tipo de oração. E Cristo mandou-nos rezar...

 

Texto e foto/ João Rocha (joaorochagenio@hotmail.com)

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